Para uma menina sem uma flor

Enquanto conversávamos, o telefone tocava insistentemente. Era outra mulher, óbvio, e o medo de que eu percebesse que havia uma terceira pessoa o impedia de ouvir o que a senhorita tinha a dizer. 
- "Pode atender". Disse-lhe, em um tom imperativo.
- "É pra bater papo. Deixa eu ver o que ela quer". Resolveu, por fim.
A dita moça queria convidá-lo para um programa no final de semana. Desconsertado, ouvi quando disse-lhe que achava que não seria possível, mas que, caso mudasse de ideia, entraria em contato. A mulher não se deu por satisfeita - digo-lhes porque acompanhei o diálogo, remexendo a pedra de gelo que derretia e aguava o meu whisky - e fez uma contraproposta. A resposta foi a mesma: "Se eu decidir, te ligo".
 
Esta não é a primeira vez que saímos, nem a única em que suas outras histórias, em algum momento, se fizeram presentes. Não me incomodo que ele saia com outras pessoas e faço questão de deixar isso claro. Não parece ser suficiente. Nem quando lhe beijei a boca e impedi que me confidenciasse quem era aquela mulher que havia ligado. "Não me importa. Não me conte", sussurrei, enquanto com minha língua recolhia suas palavras.
Quando lhe disse que não me interessa um relacionamento nos moldes tradicionais à essa altura do campeonato, a resposta veio um tanto dúbia. "Você é muito bem resolvida", disse ele, em um tom que não me permitiu entender se real ou se irônico. Seja como for, a verdade é que, por mais que nossos encontros sejam suficientemente bons, não vejo sentido de progressão. É tudo pleno de si. Não espero que ele me ligue no dia seguinte e ficaria extremamente honrada se ele entendesse que eu não sou uma menina com uma flor esperando o príncipe encantado. Talvez fosse até mais fácil se eu me adequasse ao que esperam de mim. Mas eu não conseguiria. Eu não sei como.
 
Menina Má

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