Testamento de uma Lua


Deixo de legado, meu amargurado coração aos cuidados daquele que não soube amá-lo.
Meu bem mais precioso deixo como se deixa uma esmola ou uma maldição. Para que ele se desespere ao não mais escutar o pulsar sangrento, e lembre-se que jamais terá com quem discutir outra vez ou mesmo quem rejeitar durante o dia e desejar durante a noite. Não haverá mais voz. Deixo enfim, o silêncio.

Minha luz deixo, apenas, para os que podem ver, para os conviva das noites escuras, paras as sombras e para os cegos.

Minhas noites de Lua deixo para os insones que ao verem-me nascente se matam, em minha incessante busca, como se pudessem penetrar em minha alma. Nessas noites que batizo o suicídio dos sofredores, deixo o fim.

Deixo aos poetas o sofrimento da perda da musa inspiradora das musas.

Para o resto, deixo o resto... Os restos mortais de um dia o que se pode ser.

Deixo um céu vazio.


Dona Lua

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Escrito em 01.09.2008



Ser adulto é isso mesmo?

Falem-me vocês que já o são há mais tempo que eu...

Eu tenho que deixar de fazer certas coisas porque já não tenho idade pra isso e ao mesmo tempo não deixar a criança interior morrer?

Eu tenho que ser responsável com meus compromissos, horários, imagem, família...E ainda assim tenho que viver livremente e cuidar da minha felicidade custem o que custar?

Sei não... Parece-me bem mais difícil do que eu imaginava...Quer dizer...Eu não imaginava nada disso...Não pensava em ser adulta, assim como não pensei em ser adolescente e muito menos em ser criança...

Eu só queria continuar a rir alto... Sair com meus amigos... Ficar bêbada de vez em quando... Jogar RPG... Comer doce e beber refrigerante... Beijar na boca sem ter que me preocupar tanto com corações partidos... Confiar nas pessoas como sempre fiz, mas agora não posso, não devo...

Tenho que olhar pros lados, medir a s palavras, gerenciar impressões...


PUTA MERDA!!!!

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Para uma menina sem uma flor

Enquanto conversávamos, o telefone tocava insistentemente. Era outra mulher, óbvio, e o medo de que eu percebesse que havia uma terceira pessoa o impedia de ouvir o que a senhorita tinha a dizer. 
- "Pode atender". Disse-lhe, em um tom imperativo.
- "É pra bater papo. Deixa eu ver o que ela quer". Resolveu, por fim.
A dita moça queria convidá-lo para um programa no final de semana. Desconsertado, ouvi quando disse-lhe que achava que não seria possível, mas que, caso mudasse de ideia, entraria em contato. A mulher não se deu por satisfeita - digo-lhes porque acompanhei o diálogo, remexendo a pedra de gelo que derretia e aguava o meu whisky - e fez uma contraproposta. A resposta foi a mesma: "Se eu decidir, te ligo".
 
Esta não é a primeira vez que saímos, nem a única em que suas outras histórias, em algum momento, se fizeram presentes. Não me incomodo que ele saia com outras pessoas e faço questão de deixar isso claro. Não parece ser suficiente. Nem quando lhe beijei a boca e impedi que me confidenciasse quem era aquela mulher que havia ligado. "Não me importa. Não me conte", sussurrei, enquanto com minha língua recolhia suas palavras.
Quando lhe disse que não me interessa um relacionamento nos moldes tradicionais à essa altura do campeonato, a resposta veio um tanto dúbia. "Você é muito bem resolvida", disse ele, em um tom que não me permitiu entender se real ou se irônico. Seja como for, a verdade é que, por mais que nossos encontros sejam suficientemente bons, não vejo sentido de progressão. É tudo pleno de si. Não espero que ele me ligue no dia seguinte e ficaria extremamente honrada se ele entendesse que eu não sou uma menina com uma flor esperando o príncipe encantado. Talvez fosse até mais fácil se eu me adequasse ao que esperam de mim. Mas eu não conseguiria. Eu não sei como.
 
Menina Má

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para a cabeça: pensamentos novos
para os ouvidos: Gary Moore
para o nariz: manga madura
para os olhos: rostos conhecidos
para a boca: palavras
para os cabelos: vento
para o pescoço: giros
para o peito: alívio
para as mãos: hidratante
para a barriga: abdominais
para o quadril: dança
para as pernas: ladeira
para os pés: estrada

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69


Revista Época - 2004
 

Algumas atividades parece que nasceram umas para as outras. Tomar banho e cantar dá uma alegria enorme na gente, comer pizza e falar da vida alheia é quase um ato contínuo, beber cerveja e fumar combina que é uma loucura, assim como jogar futebol e xingar a mãe, sentar no trono e ler, dirigir e ouvir música - todas delícias de uma vida boa!

Por outro lado há coisas que simplesmente não ornam. A palavra ornar, por si já não orna com nada. Chupar cana e assoviar todo mundo sabe que é desaconselhável, dirigir e falar no celular a lei não permite, conversar e pular corda é complicado, e assim a coisa vai numa longa lista de práticas incompatíveis. Pois eu queria manifestar meu desapreço por uma posição de funções adversas que, no entanto, é bastante apreciada na atividade sexual - o 69.

Você há de concordar que a postura é ingrata, a vista não é das melhores, e que se não houver cautela pode-se sair dali com um pinçamento na cervical. Além do mais, porque a pressa, porque tudo ao mesmo tempo? Parece coisa de culpa católica - é dando que se recebe, dê ao próximo o que deseja para si. Pessoalmente, considero aquela atividade frenética em ambas as pontas totalmente desnecessária, e porque não dizer, ineficiente.

Não é possível a criatura executar com primor uma função que requer coordenação, dedicação e técnica, enquanto está tentando relaxar para usufruir o que lhe acomete na outra extremidade. Sim porque uma coisa é uma coisa e a outra coisa é outra coisa! E não venha me dizer que tudo corre naturalmente e que é só meter a cara (perdão, falava no sentido figurado) que sai direito. Não sai! Pra começar, o negócio exige um estudo rigoroso da anatomia do outro. É imperativo que se saiba o que está onde, para se entender o que fazer por ali, e é claro que isso vale para parceiros de todos os sexos, independente da ponta (mesmo que convexa) em que se esteja. Também não se pode achar que a prática da coisa por si já ensine. Há quem pratique a vida inteira e, não tendo se dado ao trabalho de uma observar os detalhes da questão uma única vez, passa a vida fazendo o serviço mal feito. Outro fator que não ajuda é a inelutável proximidade com o assunto, que pode, num excesso de entusiasmo, causar a asfixia fatal do parceiro. Menos grave, mas não menos constrangedor é o caso do sujeito com a vista cansada que, nessa situação, tem que contar exclusivamente com a sensibilidade linguo-labial - não quero descriminar ninguém, mas todos sabemos como há no mundo, inclusive sem problemas de vista, criaturas desprovidas deste requisito. E há ainda o caso dos obesos que por excesso de volume no percurso, simplesmente não conseguem atingir as marcas. Por último, quero lembrar, que a reciprocidade, grande objetivo da postura, é raramente atingida, posto que tem sempre um sujeito ali largadão, enqto a outra está dando tudo de si. E vice-versa. E versa versa. E vice vice, também, eu suponho.

O Kama Sutra propõe nada menos que 529 posições pra se experimentar na hora do amor e eu não estou aqui pra desestimular a criatividade de ninguém. Mas não sei se por preguiça, ou por ter amado homens de muita aptidão, ainda considero o trivial bem feitinho algo de insuperável.

Maitê Proença

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Cansei.


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Pra somar


Pra somar

Na beira do rio
comecei contando
estória, e apenas
isso.
Não confirmo
o que confesso,
e contesto até
assim.
Joguei-me aos
pés do teu amor
amar-te-ia, eu sen-
do amigo.



*******

O poema - escrito num papel de cigarro - que eu ganhei no Zero um.


Era sexta-feira 17.08.2012

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