Talvez, quem sabe, um dia...
Acho que posso dizer que é amor, sim. Mesmo que a gente tenha se perdido para que eu pudesse encontrar a mim mesma. Mesmo que a gente tenha se perdido para que você pudesse buscar a si mesmo. É amor porque eu te guardo na lembrança bonita do meu crescimento, da descoberta do que era a co-dependência ou da fusão que subtrai. É amor, porque cantamos juntos, dançamos juntos, choramos juntos, fizemos amor intensamente, trocamos profundamente as angústias da alma, torcemos um pelo outro, nos ajudamos, viajamos juntos, gargalhamos desarvoradamente, dormimos juntos no melhor abraço um do outro, descobrimos novas músicas, sinônimos, livros, enlouquecemos lindamente, brigamos muito, fizemos as pazes várias vezes e fomos embora um do outro quando nada mais era poesia. Não foi triste, mas doeu profundamente. Uma dor resignada porque eu podia ver com clareza que já não nos acrescentávamos nada. E aprendi a trabalhar o desapego e o perdão. E hoje, quando vejo você sorrir, eu sinto que estamos bem e que fizemos a coisa certa. E o amor só pode ser isto: querer que o Outro encontre a felicidade a qualquer custo, mesmo que isso exclua você da plenitude dele. Mesmo que isto exclua o Outro da sua plenitude.
Marla de Queiroz
Eu já me esqueci de cór ♫♪
Estou sempre acompanhada... Evito estar só. Eu sinto falta dele como se um nutriente estivesse faltando no meu organismo, eu passo mal.
Nos degraus da cidade...
Suor, gemidos, o sol no começo da manhã, queimando nossa pele, meus cabelos, sua barba.
Ah, a sua barba roçando no meu rosto, pescoço, nuca, seios...
Um corpo frágil, um abraço com vontade, beijos doces, delicados, leves, quentes com “A” barba roçando no meu rosto. Essa barba que foi o motivo de eu ter te olhado.
Os degraus estavam frios, mas o que isso importa, se por dentro estávamos quentes, como o sol de meio-dia.
E o medo de sermos pegos por algum estranho, e a sensação de alguém nos olhando e ficou ali, também se satisfazendo com o nosso prazer.
A delícia do inesperado e da entrega.
Azulejos azuis, amarelos e brancos foram o cenário perfeito pra que eu chegasse a um dos meus gozos mais intensos e completos.
Mais um beijo, mais sol e a sua barba que continuou roçando no meu pescoço...
O amor acaba
“ uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.”
Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.
Testamento de uma Lua
Minha luz deixo, apenas, para os que podem ver, para os conviva das noites escuras, paras as sombras e para os cegos.
Minhas noites de Lua deixo para os insones que ao verem-me nascente se matam, em minha incessante busca, como se pudessem penetrar em minha alma. Nessas noites que batizo o suicídio dos sofredores, deixo o fim.
Deixo aos poetas o sofrimento da perda da musa inspiradora das musas.
Para o resto, deixo o resto... Os restos mortais de um dia o que se pode ser.
Deixo um céu vazio.
Escrito em 01.09.2008
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